Divulgação Foto: Laboratório pernambucano Genomika Diagnósticos

Já pensou em viver em um mundo no qual os objetos percebem e se preparam para responder aos seus movimentos? Imagine, por exemplo, que, ao ligar o carro depois do trabalho, o seu smartphone pergunte, através do Waze, se você realmente está voltando para casa. E que, se você confirmar esta informação, a notícia seja repassada ao ar-condicionado do seu quarto e ao aquecedor do seu chuveiro, para que estes aparelhos já estejam na temperatura ideal na hora em que você chegar. Até o som ou a televisão podem se aproveitar disso para estarem sintonizados no seu canal preferido no momento em que você cruzar a porta de entrada, que, por sinal, também vai estar à sua espera, abrindo-se sozinha assim que o relógio bater o horário de chegada calculado pelo Waze, depois, claro, que o portão da garagem e o elevador do seu prédio fizerem o mesmo. Parece assustador? Pois comece a se acostumar, porque essas e outras conexões entre o homem e a máquina devem se tornar realidade muito em breve, graças à Internet das Coisas (IoT).

Segundo a Dell Technologies, a Internet das Coisas cresce com muita força, conectando cada vez mais o mundo físico a um mundo mais inteligente. Afinal, como mostra um levantamento da IDC Consultoria, esta solução já representa 15% dos gastos destinados às Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) no mundo - montante que deve chegar a US$ 1,1 trilhão neste ano. Só no Brasil, por exemplo, a solução deve receber investimentos da ordem de US$ 8 bilhões em 2018. Por isso, a expectativa é que 50 bilhões de dispositivos estejam conectados à internet até 2020. E esse número só tende a crescer. Para a Gartner, neste mesmo ano, um milhão de novos dispositivos vão entrar na rede a cada hora. Por isso, o impacto da IoT será sentido em quase toda a parte.

Segundo a Associação Brasileira de Internet das Coisas (Abint), a IoT “não é o nome de uma tecnologia, mas sim um termo ‘guarda-chuva’ que abrange diferentes tecnologias e verticais com implicações profundas nos negócios, na cultura e na vida em sociedade de forma geral”. Esta solução cria uma nova rede de interação entre as máquinas e o mundo virtual, para que as máquinas possam atuar de forma inteligente e, assim, ajudar os seres humano nas suas tarefas cotidianas. “É uma rede de objetos conectados que falam entre si e com a nuvem. Mas, diferente do que acontece no ‘machine to machine’, onde os equipamentos só falam com os sistemas; a Internet das Coisas conta com vários dispositivos gerando informações na rede, além de sistemas que analisam esses dados para tomar decisões”, explica o diretor de tecnologia da Abinc, Luis Viola, dizendo que essa solução pode ser usada tanto nos domicílios, quanto nas empresas e nas cidades. “Os sinais de trânsito inteligentes, por exemplo, têm sensores que percebem quantos carros estão passando na rua e, por isso, podem ampliar o tempo do sinal verde caso haja muitos veículos”, conta, lembrando que este é apenas um exemplo da aplicação da IoT.

O laboratório pernambucano Genomika Diagnósticos, por exemplo, usa esta solução para monitorar a temperatura do freezer que armazena as amostras de DNA usadas nos jam exames. “Nós temos que manter as amostras em temperaturas muito baixas para que elas não estraguem e vimos a Internet das Coisas como uma solução interessante para resolver esse problema através de equipamentos que já conhecíamos”, explica o diretor de tecnologia da Genomika, Marcel Caraciolo, contando que a empresas só precisou comprar sensores de temperatura para criar o sistema que garante a qualidade das amostras hoje. “O sensor foi instalado no freezer e hoje faz coletas constantes da temperatura da sala. Ele também envia esses dados para o nosso sistema de gestão através do Wi-Fi. Nosso servidor analisa, então, esses dados e nos alerta, via e-mail, caso a temperatura se aproxime do limite de qualidade”, explica.

“Podemos embutir uma forma de comunicação em qualquer item do nosso dia a dia”, confirma o engenheiro-chefe de IoT do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR), Tiago Barros, frisando que esta conexão sempre procura dar uma função extra aos objetos que já conhecemos. “O importante é que esse produto passe a valer muito mais quando estiver conectado, que as coisas passem a funcionar de maneira diferente, assumindo outras funcionalidades, com certa autonomia. É uma evolução do que já conhecemos”, reforça. Ele explicou que, para isso, as coisas precisam absorver dados do ambiente em que estão inseridas e conversar entre si para poder tomar decisões com base nestas informações. A decisão, porém, está sempre atrelada a um padrão definido previamente pelo ser humano. “As coisas passam a ser inteligentes, mas nós estamos no controle desse processo, cujo objetivo é tornar nossa vida mais fácil e confortável”, garante Barros.

É por isso que grande parte das soluções desenvolvidas por meio da IoT busca resolver problemas domésticos, como a questão dos aquecedores e das portas mencionada no início desta reportagem. “Estima-se que 4% das residências brasileiras já tenham algum tipo de dispositivo conectado, como controles de câmeras de segurança, temperatura e ar condicionado. Mas esse número deve crescer com muita força nos próximos anos. Por isso, a IoT pode ser considerada uma das frentes da transformação digital”, afirma o gerente de consultoria e pesquisa da IDC Brasil, Pietro Delai, contando que a IoT será responsável por 10% de toda a informação gerada dentro do planeta daqui a apenas dois anos - bem mais que os 2% registrados em 2013. “E muito disso virá de países emergentes como o Brasil, pois esses países serão responsáveis por 60% das informações geradas no planeta em 2020”, explica Delai.

O que não se sabe, contudo, é quando as soluções de Internet das Coisas estarão disponíveis para toda a população desses países. É que, como são relativamente novos, esses produtos ainda são vendidos por um custo um pouco elevado. “Os assistentes eletrônicos, por exemplo, precisam ganhar escala para terem preços compatíveis com o bolso do brasileiro”, pontua o gerente de pesquisa e consultoria de consumer devices da IDC Brasil, Reinaldo Sakis. A Abin garante, por sua vez, que isso já está sendo discutido no Brasil. “O Governo Federal está se movimentando para viabilizar isso. Já lançou linhas de financiamento através do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) e está trabalhando no Plano Nacional de IoT. E uma das questões que está em discussão é a taxação dessas redes”, revela o diretor da associação, Luis Viola. “Com esse incentivo governamental, o desenvolvimento da tecnologia será mais rápido. Fala-se até que a IoT vai crescer mais que o PIB brasileiro nos próximos anos, na casa dos 10% ao ano”, acrescenta o gerente da IDC, Pietro Delai.

Atentos a esse movimento, o CESAR e o Porto Digital estão trabalhando no desenvolvimento de soluções que possam colocar Pernambuco em destaque no plano nacional de IoT. O CESAR já criou até uma plataforma que pode ampliar a conectividade dos objetos e foi escolhida como padrão mundial pela Organização das Nações Unidas (ONU). “Produtos de fabricantes diferentes podem não conseguir conversar entre si já que cada fabricante teu seu próprio protocolo. Mas nós desenvolvemos uma plataforma que coloca várias coisas, de protocolos diferentes, para conversar na mesma língua”, conta o diretor do CESAR, Tiago Barros.

Já o Porto Digital criou um laboratório que reúne os equipamentos necessários para que os empreendedores pernambucanos possam desenvolver seus próprios produtos de IoT. É o Laboratório de Objetos Urbanos Conectados (L.O.U.Co), que funciona no Apolo 235, no Bairro do Recife. “Queremos fomentar empreendimentos em cidades inteligentes e IoT. Por isso, as pessoas podem usar nossas ferramentas e trocar ideias com os nossos consultores”, explica o coordenador do L.O.U.Co, Leonardo Lima, dizendo que várias soluções já surgiram desta forma. Um desses negócios é o IoTherm, empresa que conecta uma pulseira digital a um termômetro, para que os pais possam acompanhar a temperatura dos filhos doentes em qualquer hora e lugar. “Temos muitas tecnologias em desenvolvimento. E, como todo o mundo também está trabalhando nesse sentido, o Brasil pode ser um protagonista nesse movimento de IoT”, acredita Barros.

DIA A DIA | Tiago Barros, do CESAR, lembra que a conexão sempre procura dar uma função extra aos objetos que já conhecemos Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco
AMOSTRAS DE DNA | Diretor de tecnologia da Genomika, Marcel Caraciolo precisava manter as amostras em temperaturas muito baixas para que elas não estragassem e a Internet das Coisas foi a solução interessante Foto: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

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