LIXO | Reciclagem é uma tendência irreversível e praticamente tudo pode ser reciclado e encontrar uma nova utilização. A separação de resíduos realimenta a produção da indústria, gera empregos, autonomia financeira e contribui para a sustentab Foto: Chris Stowers/AFP

A forma como as pessoas veem a temática do meio ambiente e da sustentabilidade e como se sentem, nos mais diversos aspectos, tem motivado algumas das principais inovações nesse cenário. Pesquisas e mercados estão voltados às mudanças nos hábitos de consumo e seus impactos, em busca de atos mais responsáveis, envolvendo reuso de água e de destinação de rejeitos, reciclagem e novas possibilidades de convivência e preservação.

“Tenho a intenção de desenvolver algo que substitua o plástico porque ele é o mal do século”, diz a bióloga e professora do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária da UniFBV | Wyden, Raiana Lira, que tem doutorado em Ecologia e Recursos Naturais. O incômodo gerado com essas discussões já surtiu efeito e vários projetos de lei foram aprovados ou estão em discussão pelo País para vetar o uso de canudos plásticos. “A exemplo do Movimento Lixo Zero, há um crescimento do número de pessoas interessadas em coisas mais duráveis, que gerem menos lixo. As mudanças podem parecer ‘micro’, mas não são: dentro de um ano, a alteração no comportamento de uma população já consegue criar um impacto na legislação. Se colocarmos em perspectiva começamos a falar em canudo de inox há dois anos”, argumenta.

Os discursos acerca do meio ambiente e da sustentabilidade já vêm sendo proferidos há anos, mas não faz tanto tempo que viraram prática, principalmente no Brasil. “Se a gente pensar que o conceito de sustentabilidade vem de 1980, é muito recente. Além disso, foi imposto ao Brasil que fosse feito o Plano Nacional de Meio Ambiente como condição para continuar recebendo financiamento externo. Em outros países, foi uma preocupação da população que chegou ao governo; aqui chegou para o governo para poder chegar à população. Tanto é que há muito sendo revisto, e tudo isso interfere no comportamento das pessoas”, continua Raiana.

Outro espaço ocupado, as escolas estão tendo papel decisivo na formação da mentalidade de crianças e jovens para assuntos relacionados ao meio ambiente. “Uso muito pouco plástico, trouxe isso para a sala de aula (do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária) e os alunos se interessaram. Fizeram uma grande encomenda de canudos de inox para substituir os de plásticos. Eles estão empolgados porque é a área de estudo deles, mas este é um debate desta geração. A gente não discutia essas coisas há pouco tempo, mas as crianças hoje já sabem onde colocar o lixo de forma correta”, diz a professora.

Políticas sustentáveis, ambientalmente responsáveis, entram nas empresas e também estimulam mudanças de comportamento. Recentemente, narra a professora, houve um fórum de finanças sociais, evento voltado às empresas que pensam em gerar lucro juntamente com um impacto socioambiental positivo. “Dentro desse fórum tinha duas linhas: ‘meio ambiente’ e ‘grandes empresas’”, diz Raiana, enfatizando que é um sinal de que a agenda está avançando. “É importante entender que as pessoas também fazem parte do ambiente, então o ‘sócio’ é indissociável do ‘ambiental’”. De forma ampla, o caminho ainda está no início. Nas metas para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), até 2030, o Brasil está muito atrasado, assim como seus vizinhos. “Todos os países que podem ser referência nessa questão são da cultura nórdica”, continua Raiana Lira.

Corantes e a nanotecnologia
Também professora do curso de Engenharia Ambiental (da UniFBV|Wyden), Iane Oliveira explica que projetos que visam o reaproveitamento da chuva, com mecanismos simples de captação da água, têm mais obstáculos na falta de vontade política para implantação do que, necessariamente, a falta de recursos. Os números justificariam, por si só, a ampliação de projetos dessa natureza: segundo Iane, a economia pode chegar a 30%. Como a água é um dos pontos mais sensíveis desse debate, tanto por ser essencial quanto por ser muito suscetível à poluição, a indústria têxtil está no foco, já que figura entre as mais poluidoras do mundo, além de ser um dos braços fortes da economia de Pernambuco. De olho nisso, estudantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) estão estudando formas de tratar a água residual do processo de lavagem e tintura, buscando a eliminação do corante usado no processo.

Estudante de graduação do curso de Química Industrial da UFPE, Emerson Felipe está fazendo testes no laboratório do Centro de Tecnologia do Nordeste (Cetene) em busca da fotodegradação (degradação da molécula pela simulação da luz solar) de corantes têxteis, especificamente o RB5 (Reative Black 5), um dos mais usados pela indústria no Estado. “A questão ambiental é um dos motivos de eu trabalhar com essa pesquisa, visto que a poluição da água é um grande problema”, comenta o estudante. Mestranda em Ciências Materiais da UFPE, Emanuely de Souza também pesquisa uma solução. “O final do processo gera uma quantidade imensa de lodo, uma espécie de pasta, que pode ser incinerada ou jogada em aterro, dependendo da empresa”, diz, explicando que os corantes se dividem em várias classes - os orgânicos, os inorgânicos, os reativos, entre outros.

Segundo Emerson, os corantes têxteis são moléculas muito complexas, difíceis de se degradar, e que não conseguem ser removidas pelos tratamentos usados atualmente. O estudo aplica a fotodegradação usando o TiO2 (dióxido de titânio) como catalisador - substância que acelera a reação química - impregnados em monólitos de latão, estruturas com uma grande superfície que ajudam nesse processo de degradação. “Como os tratamentos convencionais não conseguem degradar totalmente esses compostos, há a formação de outros. Com o uso da fotodegradação neste estudo, os únicos resíduos que buscamos ter é o CO2 e a água”, completa Emerson. Pior: como os tratamentos usuais não retiram toda a toxidade presente na água, a remoção parcial pode gerar uma substância intermediária ainda mais poluente do que o corante. “Esse lodo resultante é poluente, não foi tratado, está tóxico, e pode trazer tanto um problema para a água quanto para o solo. O mesmo rio que a gente joga às vezes é o mesmo rio que a Compesa faz captação de água, para tentar tratar, para abastecimento da população”, explica Emanuely. O projeto de mestrado de Emanuely ainda está no início, mas o de iniciação científica de Emerson tem um parceiro industrial que já sinalizou interesse em implantar um piloto tão longo seja possível. “Hoje, é preciso juntar mais de um tratamento para conseguir remover esse poluente, e o processo que estamos desenvolvendo será uma forma de simplificar e baratear os custos para a indústria”, diz o estudante.

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