O FUNDADOR | 'A cultura digital que se cria aqui já está transbordando para outros setores da economia estadual', diz Cláudio Marinho Foto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco

Vinte anos atrás, quase ninguém acreditava que seria possível construir softwares de qualidade no Nordeste brasileiro. Já hoje não há dúvidas sobre isso. Afinal, um grande parque tecnológico se formou no Recife, fruto da articulação de agentes empresariais, acadêmicos e governamentais que buscavam dar visibilidade aos negócios de inovação que despontavam na capital no início dos anos 2000, criando um “porto para a economia digital de Pernambuco”. É o Porto Digital, ecossistema que já congrega 300 empresas e mais de nove mil profissionais qualificados e continua incentivando a formação de negócios inovadores, para, assim, colocar o Recife na dianteira deste processo de construção do futuro.

“O futuro está sendo redesenhado com base em inovações tecnológicas e aplicações digitais. Sendo uma plataforma de desenvolvimento de softwares e serviços fundamentados em Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), o Porto Digital é, portanto, um 'ativo da economia pernambucana que pode ser construtor desse futuro. Isto é, Pernambuco tem, através do Porto Digital, a oportunidade de ser um protagonista, e não um mero espectador, do processo de inovação”, declarou o atual presidente do parque tecnológico, Francisco Saboya. “Todos os negócios serão impactados, cada vez mais e mais rapidamente, pela transformação digital. Os que não entrarem nisso não vão subsistir. Então, contribuímos com o futuro ao semear uma cultura digital na economia de Pernambuco”, acrescentou Claudio Marinho, que leva o título de ‘fundador do Porto Digital’ por ter sido o secretário de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco na criação do ecossistema. 

“A cultura digital que se cria aqui já está transbordando para outros setores da economia estadual. Empresas tradicionais já percebem a importância da tecnologia e algumas até procuram ajuda do Porto Digital. Então, esse ecossistema será fundamental para o futuro de Pernambuco”, analisou Marinho, frisando que esse futuro já está sendo construído. Hoje, por exemplo, mais 12 empresas estão sendo incubadas e aceleradas no Porto Digital. E outros 10 empreendedores podem ser incubados nas instalações que o parque tecnológico mantém em Caruaru, o Armazém da Criatividade, a partir de agosto. Com isso, o número de negócios incentivados pelo ecossistema vai chegar perto de 200. 



Nos seus 18 anos de atividade, o Porto Digital incubou 18 startups, acelerou outras nove empresas, levou mais seis para o exterior por meio do programa de internacionalização Deep Dive e contribuiu com a estruturação de 62 novos negócios através do programa de empreendedorismo Mind the Bizz. E o ecossistema garante que a maior parte desses negócios deu certo: todas as aceleradas continuam no mercado e 80% dos projetos desenvolvidos no Mind the Bizz estavam operando no fim de 2017. São startups que trabalham com tecnologias diversas para solucionar problemas do dia a dia e, com isso, sonham em chegar ao patamar de negócios alcançado pelos cases de sucesso do Porto Digital, como a Procenge, a In Loco Media e a Mr. Plot

DOC E TED
Criada há 45 anos, a Procenge foi uma das primeiras empresas a embarcar no ecossistema. E, com a rede de contatos obtida no parque, conseguiu multiplicar o seu negócio. A empresa é responsável, por exemplo, pela criação dos sistemas de transferência bancária Transferência Eletrônica Disponível (TED) e Documento de Ordem de Crédito (DOC), que são usados pelas grandes instituições financeiras de todo o País. “Antes, nós precisávamos batalhar muito para vender nossos produtos, porque as pessoas não acreditavam que se fazia tecnologia no Recife. Mas o Porto Digital desenvolveu uma marca que é vista e respeitada pelas pessoas. Agora, as pessoas sabem que existe um conjunto de empresas de tecnologia aqui. Por isso, hoje nós temos clientes em todos os estados do Brasil”, contou o atual presidente da empresa, José Claudio Oliveira, admitindo que empreender no Recife ficou muito mais fácil com o apoio do Porto Digital. “Já havia uma base de desenvolvimento de tecnologia na cidade, mas isso dependia muito da intuição das empresas. Com o parque, isso se tornou mais sistêmico e organizado, já que o ecossistema congregou vários dos elementos que conduzem à inovação”, justificou Nascimento. 

“O que queríamos era dar visibilidade às empresas locais, porque a economia digital de Pernambuco já era qualificada, mas ainda precisava ganhar escala”, confirmou Claudio Marinho. Ele lembrou, porém, que mais duas metas nortearam o desenvolvimento deste ecossistema. “Sempre trabalhamos a ideia de que esta era uma plataforma de inovação, já que não há mercado para tudo em Pernambuco - até hoje, mais de 70% do que se produz aqui é exportado para o resto do Brasil. Por fim, buscamos estabelecer uma cooperação entre as empresas, a universidade e o governo. Isso é fundamental para a competitividade e as empresas locais precisavam dessa interação”, acrescentou o ex-secretário estadual, lembrando que esta integração é uma realidade até hoje. 

O Governo, por exemplo, além de ceder espaços físicos para as instalações do Porto Digital, oferece benefícios fiscais para as empresas embarcadas no parque. O Estado ainda incentiva a inovação por meio de atividades próprias - o Instituto de Tecnologia de Pernambuco (Itep) criou até a Incubadora de Empresas de Base Tecnológica de Pernambuco (Incubatep) para incentivar o desenvolvimento de startups onde o Porto Digital ainda não alcança, como Serra Talhada e Petrolina. 

Apesar de estar longe do campus universitário, diferentemente do que acontece na maior parte do mundo, o parque tecnológico também conta com apoio da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) na criação de novas tecnologias e empresas - a In Loco Media, por exemplo, surgiu de um trabalho acadêmico do Centro de Informática (Cin). “O Porto Digital nasceu dentro do Cin e nunca deixou de estar ligado à Universidade. Só não ficou na Várzea para poder contribuir com a recuperação do Centro do Recife. E, assim, transformou-se também em uma operação de recuperação urbana”, contou o professor do CIn Geber Ramalho, lembrando que o parque ocupou e restaurou vários prédios que estavam em ruínas no Bairro do Recife - para se ter uma ideia, só a construção do Apolo 235 custou R$ 9 milhões. 

Entre a academia e o mercado, os empreendedores ainda podem contar com o apoio do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife, o CESAR. É um instituto que virou referência nacional desenvolvendo ou aperfeiçoando tecnologias e prestando consultorias às empresas de inovação. “É muito difícil inovar sozinho. A universidade, por exemplo, se preocupa em criar o novo, mas não pensa em como isso vai para o mercado. Então, o CESAR atua nesse meio de campo, adaptando essa nova tecnologia à real necessidade do mercado”, contou Geber Ramalho, que também é presidente do CESAR e valoriza a articulação dos diferentes agentes de inovação existentes em Pernambuco. “Esse espírito de colaboração e parceria é uma das razões para as coisas darem certo aqui”, acredita.

 

Foi por tudo isso que a Mr. Plot e a In Loco Media nasceram em um ambiente de negócios bem mais favorável que o enfrentado pela Procenge antes dos anos 2000. A Mr. Plot, por exemplo, passou mais de um ano sendo incubada no Porto Digital para poder criar um negócio verdadeiramente sustentável. E, com isso, desenvolveu um dos desenhos infantis de maior sucesso do Brasil, o Mundo Bita. A empreitada deu tão certo que saiu das telinhas, ganhando outras facetas e gerando um faturamento anual superior a R$ 1 milhão. É uma cifra surpreendente para uma startup que começou como a Mr. Plot, por meio de um desenho feito pelo designer Chaps Melo para decorar o quarto da filha, mas que também se tornou algo comum para a In Loco Media. Criada por alunos do CIn, a In Loco já vale mais de US$ 150 milhões e espera chegar ao US$ 1 bilhão nos próximos cinco anos, transformando-se na primeira “unicórnio” de Pernambuco. Afinal, desenvolveu um sistema de geolocalização mais eficiente que o GPS, que se tornou um aliado de muitos dos grandes bancos brasileiros, e ainda trabalha na criação do que pode vir a ser “a plataforma da próxima geração da computação, a da internet das coisas”. 

“Temos muitos talentos de tecnologia aqui. E o fato de ter essas pessoas concentradas, pensando juntas, facilita a troca de ideias e fomenta a criação de novos negócios”, explicou o CEO da In Loco Media, André Ferraz, lembrando que os incentivos fiscais oferecidos pela Prefeitura do Recife às empresas embarcadas no Porto Digital também ajudam no desenvolvimento empresarial. “Com isso, economizamos bastante. E nós usamos essa economia para reinvestir”, contou, pontuando apenas que, ao atingir a “maioridade” neste ano, o Porto Digital poderia dar um próximo passo, buscando estreitar o canal de relacionamento com os investidores de tecnologia, que ainda se concentram em São Paulo.

UNIVERSO INFANTIL | Segundo Chaps Melo e Felipe Almeida, a Mr. Plot, criadora do Mundo Bita, foi incubada no Porto Digital Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco
O FUTURO REDESENHADO | Presidente do Porto Digital, Francisco Saboya diz que o parque tornou Pernambuco um protagonista digital Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

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