Arthur de Souza/Folha de Pernambuco Foto: Empreendedor Marco Carnut explica que o blockchain é um sistema para contabilidade global continuamente auditada em redes distribuídas

Tecnologia que deu origem ao bitcoin, o blockchain tem chamado a atenção de vários investidores ao redor do mundo. E não é para menos. A moeda virtual já chegou a valer US$ 18 mil e a movimentar US$ 290 bilhões, motivando até a criação de outras criptomoedas. Não bastasse isso, outras formas de uso desta solução já começam a aparecer no mercado, sempre oferecendo a garantia de uma auditoria perfeita. Por isso, a expectativa é que diversos agentes socioeconômicos passem a usar o blockchain no registro de suas transações nos próximos anos. 

“Da mesma forma que o Uber colaborou com o sistema de transporte de passageiros e o Airbnb com o sistema de hotelaria, o blockchain pode ajudar a auditar transações que envolvem transferência de dados ou valores. Neste sistema, os participantes podem conferir e auditar as contas e os dados uns dos outros em um processo contínuo. É como se existisse um sistema de contabilidade perfeito, em que as contas batem até a última casa decimal porque são checadas por todos. Então, as informações são muito seguras”, defende o empreendedor Marco Carnut, explicando que o blockchain representa “um sistema para contabilidade global continuamente auditada em redes distribuídas".
 
“A ideia inicial do Blockchain era criar um banco de dados que pudesse armazenar informações e não tivesse dependência de ninguém para garantir a veracidade desses dados. Então, esta tecnologia pode resolver vários problemas relacionados à veracidade de informações”, confirma o engenheiro de software do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR) Renato França, contando que, por conta disso, o bitcoin nada mais era do que uma recompensa oferecida àqueles que ajudaram a criar a primeira rede de blockchain do mundo - a rede que, hoje, suporta esta criptomoeda
 
Ele explicou que o blockchain representa um banco de dados distribuídos, no qual cada pessoa ou dispositivo que tem acesso a esta rede representa um dos nós do sistema e pode checar a veracidade das informações armazenadas, através de códigos, no restante dos nós. “Uma pessoa que quer submeter dados no blockchain precisa criar uma transação e esta transação precisa ser validada por todos os membros dessa rede. É isto que garante a veracidade das informações. Mas esta validação também demanda energia. Então, no início, quem fazia essa validação era recompensado pelo gasto de energia com uma porcentagem do bitcoin”, conta França, frisando que o fundador desta rede nunca se apresentou ao mundo.
 
Na internet, a criação do blockchain e do bitcoin é atribuída a Satoshi Nakamoto. Essa associação, no entanto, fundamenta-se apenas em um artigo assinado pelo japonês meses antes do surgimento da criptmoeda, em 2008. Depois disso, Nakamoto nunca mais apareceu, nem para colher os frutos dessa invenção. “Ninguém sabe se ele existe. Mas, se de fato existir e ainda possuir os blocos iniciais do bitcoin, Nakamoto poderia ser o primeiro trilionário do mundo”, brinca o engenheiro do CESAR.  

Sendo Nakamoto trilionário ou não, o fato é que sua (possível) invenção vai receber investimentos de todos os cantos do mundo. Só em 2018, US$ 2,1 bilhões serão investidos em outras redes e aplicações de blockchain, segundo a IDC Consultoria. E a expectativa é que este valor chegue a US$ 9,2 bilhões em 2021, saindo, em boa parte, da América Latina. Ainda de acordo com a IDC, o uso do blockchain na região vai crescer 127,3% só nos próximos três anos. 
 
A IBM, por exemplo, vai aplicar US$ 5,5 milhões na construção do primeiro hub de soluções dedicado a blockchain da América Latina até 2020. A empresa acredita que é possível adaptar esta tecnologia à necessidade das empresas, de forma a acelerar o desenvolvimento, a governança e a operação dos negócios. Por isso, vai trabalhar na criação “da nova geração de aplicações blockchain” neste hub, que fica no Brasil, em São Paulo.

Bancos
Outra dessas possíveis aplicações está sendo desenvolvida no sistema financeiro nacional, através de um  Grupo de Trabalho (GT) que estuda o blockchain dentro da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). É um protótipo que visa garantir a segurança das transações realizadas no mobile banking - canal que já concentra mais de um terço das transações bancárias realizadas no País (só em 2017, 25,6 bilhões de operações partiram de celulares ou tablets).

“O mundo inteiro percebeu que esta tecnologia pode suportar ou embasar outros tipos de aplicações. E o segmento financeiro viu o blockchain como uma bela oportunidade de desenvolver produtos disruptivos que não precisam de intermediário e geram confiança”, explicou o coordenador do GT da Febraban, Adilson Conceição.
 
Ele lembra que o blockchain representa uma rede distribuída, com vários pontos de dados codificados, que valida e compartilha informações. Portanto, pode permitir que diferentes bancos dividam informações sobre usuários, contas e dispositivos sem ter de compartilhar os dados pessoais dos seus clientes. “No protótipo, a ideia é compartilhar e qualificar as informações sobre dispositivos móveis entre as instituições financeiras. Com isso, poderemos dizer se um dispositivo é saudável ou não. Se um cliente tiver o celular roubado e informar ao banco, por exemplo, podemos registrar que esse dispositivo não é mais confiável. E o blockchain vai dar essa informação caso alguém acesse um aplicativo bancário por meio deste celular”, explica Conceição, destacando que a plataforma não vai tomar decisões. Sua função é apenas avaliar a credibilidade do dispositivo para a instituição financeira. “É o banco que vai decidir se autoriza ou não essa transação”, ressalta, lembrando que isso pode reduzir a ocorrência de fraudes no sistema bancário.
 
Por conta disso, 18 instituições financeiras, inclusive o Banco Central, estão avaliando a possibilidade de transformar o protótipo em um produto comercial. Outras soluções baseadas no blockchain também estão sendo estudadas isoladamente pelos bancos. O Itaú Unibanco já lançou até uma ferramenta deste tipo. É o Blockchain Collateral, novo protocolo que busca dar mais agilidade, transparência e rastreabilidade no processo de chamada e controle de margem (solicitação e aporte de garantias de derivativos de balcão). Por isso, o GT da Febraban planeja lançar uma proposta de governança sobre o uso do blockchain nas instituições financeiras até o final deste ano.
 
Pernambuco
Não é preciso ir tão longe para encontrar soluções que se baseiam no blockchain. Uma empresa do Porto Digital também está trabalhando em cima da solução. É a Coinwise, startup que começou como uma carteira digital de criptmoedas, mas acabou encontrando outra utilidade para a tecnologia que originou o bitcoin. “O blockchain tem aplicações que transcendem as criptmoedas, apesar de as moedas virtuais estarem mais desenvolvidas e aquecidas. Um exemplo é a notarização de documentos”, afirma o sócio da empresa, Marco Carnut, explicando que a empresa usa as redes de auditoria do blockchain como um cartório digital, que tem validade global. 
 
A ideia é simples: se você quer guardar um documento com privacidade, precisa apenas digitalizar este documento e registrá-lo, através de um código, na rede de blockchain. “O sistema escolhe uma senha que codifica o seu arquivo à medida em que ele é enviado, de forma que, enquanto ele estiver armazenado na nossa ‘nuvem’ e antes de ser baixado pelos destinatários, ele permanecerá codificado e nem nós teremos acesso ao seu teor. Só poderá baixá-lo quem tiver a senha”, explica Carnut, dizendo que esta pode ser uma boa alternativa para quem quer transmitir documentos confidenciais, como contratos, exames e fotos. 
 
Além disso, a solução mostra a autoria e a data de registro desses documentos. Por isso, também pode ser usada como uma “patente” por artistas ou cientistas. “O sistema gera identificadores únicos para os documentos. E, como o blockchain é público, é possível provar posteriormente que aquele documento foi postado naquele dia exato através deste identificador”, explica.
 
Carnut ainda cita outras possibilidades de uso do blockchain, que ainda devem ser desenvolvidas pelo mercado. Seguindo esta mesma lógica, dá para registrar e compartilhar exames médicos entre diferentes hospitais, por exemplo. Assim, o paciente poderá ter acesso ao seu histórico de saúde caso mude de ambulatório. Além disso, é possível garantir a procedência de um produto rastreando o seu código no blockchain. Uma empresa pode rastrear o código do produto que pretende comprar para conferir se ele realmente provém do estabelecimento esperado. Neste caso, ela poderia assegurar que uma fruta é orgânica, por exemplo. E ainda há quem torça para que, um dia, o blockchain auxilie a contagem dos votos eleitorais, garantindo um resultado isento nas eleições municipais, estaduais e federais.

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